O SLT (trabeculoplastia seletiva a laser) é um laser aplicado no consultório, em poucos minutos, que reduz a pressão dentro do olho no glaucoma. Não corta, não interna e pode ser repetido. Em boa parte dos pacientes com glaucoma leve a moderado, substitui o colírio como primeiro tratamento.
O glaucoma é uma das principais causas de cegueira irreversível no mundo. Seu controle depende, na maioria dos casos, da redução da pressão intraocular — e o laser SLT surge como uma alternativa eficaz e minimamente invasiva para alcançar esse objetivo, muitas vezes reduzindo ou substituindo o uso de colírios.
O que é o SLT?
SLT é a sigla para Selective Laser Trabeculoplasty — em português, trabeculoplastia seletiva a laser. O procedimento utiliza pulsos de laser de baixa energia para estimular células específicas do sistema de drenagem do olho (a malha trabecular), melhorando o escoamento do humor aquoso e, consequentemente, reduzindo a pressão intraocular.
A palavra "seletiva" é fundamental: o laser age apenas nas células pigmentadas da malha trabecular, preservando as células vizinhas. Isso torna o procedimento seguro, repetível e com mínimos efeitos colaterais.
O SLT foi o tema da minha tese de doutorado pela Universidade de São Paulo (USP). Minha pesquisa avaliou a eficácia do procedimento em pacientes brasileiros, contribuindo para o embasamento científico do uso do SLT no Brasil.
Como é feito o procedimento?
O SLT é realizado no consultório, com o paciente sentado em frente ao equipamento de laser — sem necessidade de sala cirúrgica, anestesia geral ou internação. O processo é simples:
- Instilação de colírio anestésico e de um colírio para preparar o olho
- Adaptação de uma lente de contato especial para direcionar o laser
- Aplicação dos pulsos de laser ao redor da malha trabecular (dura cerca de 5 minutos)
- Controle imediato da pressão ocular após o procedimento
O paciente vai embora caminhando e retorna em consulta de revisão após algumas semanas para avaliar a resposta ao tratamento.
Quem pode se beneficiar do SLT?
O SLT tem indicações bem estabelecidas na literatura científica. É especialmente indicado para:
- Pacientes com glaucoma de ângulo aberto que não atingiram a pressão-alvo com colírios
- Pacientes com dificuldade de aderir ao uso regular de colírios (esquecimentos, efeitos colaterais)
- Hipertensos oculares com risco elevado de progressão para glaucoma
- Pacientes que desejam reduzir o número de colírios em uso
- Casos onde o SLT pode ser usado como tratamento de primeira linha, antes mesmo dos colírios
Quais resultados posso esperar?
Em média, o SLT reduz a pressão intraocular entre 20% e 30%. Os resultados aparecem gradualmente ao longo de 4 a 8 semanas após o procedimento. Em uma parcela significativa dos pacientes, o efeito se mantém por 3 a 5 anos — e o procedimento pode ser repetido quando necessário, sem perda de eficácia.
Um estudo randomizado publicado no Lancet (LiGHT trial, 2019) demonstrou que o SLT como tratamento inicial do glaucoma de ângulo aberto foi tão eficaz quanto os colírios, com melhor qualidade de vida e menor custo para o paciente.
SLT tem riscos?
O SLT é considerado um dos procedimentos mais seguros em oftalmologia. Os efeitos adversos são raros e geralmente transitórios:
- Leve desconforto ocular nas primeiras horas
- Elevação transitória da pressão ocular logo após o procedimento (controlada com medicação preventiva)
- Inflamação leve, tratada com colírio anti-inflamatório por alguns dias
Complicações graves são raras. O procedimento não impede a realização de cirurgias futuras, caso necessário.
SLT substitui os colírios ou a cirurgia?
Depende do caso. Para muitos pacientes, o SLT permite reduzir ou eliminar o uso de colírios, o que representa um ganho significativo em qualidade de vida e adesão ao tratamento. Em outros, funciona como complemento, reforçando o controle pressórico.
O SLT não substitui cirurgias mais invasivas como a trabeculectomia ou os procedimentos MIGS quando há glaucoma avançado ou pressão muito elevada que não responde ao laser. A indicação precisa depende de uma avaliação individualizada.
E o SLT difere do ALT (laser de argônio)?
Sim. O ALT (trabeculoplastia com laser de argônio), técnica mais antiga, causa dano térmico à malha trabecular e não pode ser repetido com segurança. O SLT, por ser seletivo, preserva a estrutura tecidual e pode ser refeito, representando um avanço importante no tratamento do glaucoma.
Perguntas frequentes
O SLT dói?
Não. O procedimento é feito com colírio anestésico, dura cerca de 5 minutos por olho e o paciente relata no máximo um desconforto luminoso. Não há corte, ponto ou internação, e a pessoa volta para casa em seguida.
Quantas vezes o SLT pode ser repetido?
Diferente do laser antigo de argônio (ALT), o SLT não causa dano térmico permanente à malha trabecular e por isso pode ser repetido. Na prática, é comum repetir quando o efeito começa a se perder, geralmente depois de alguns anos.
Quanto tempo dura o efeito do SLT?
O efeito costuma se manter por vários anos, com perda gradual ao longo do tempo. Em estudo prospectivo conduzido no Sistema Único de Saúde brasileiro, a redução média da pressão intraocular foi de 25,7% em 12 meses, e 68% dos pacientes conseguiram reduzir a quantidade de colírios que usavam.
O SLT substitui o colírio?
Em muitos pacientes com glaucoma leve a moderado, sim. Em outros, funciona como complemento e permite reduzir o número de frascos. A decisão é individual e depende da pressão-alvo, do estágio da doença e da resposta ao laser.
Quem não pode fazer SLT?
O SLT não é indicado em alguns tipos de glaucoma, como o de ângulo fechado sem tratamento prévio, glaucomas inflamatórios ativos e casos avançados com pressão muito elevada, em que a cirurgia é a conduta correta. A avaliação com gonioscopia define isso.
O SLT está disponível no SUS?
O procedimento existe na tabela do SUS, mas ainda é pouco realizado no Brasil. Estudos brasileiros de custo-efetividade mostram que substituir colírio por SLT reduz o custo do tratamento do glaucoma para o sistema público.
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